De volta ao pedal

Pedalar nos conecta com o mundo, faz com que sejamos parte da cidade, abre a alma para a vida.

Dia 11 de agosto de 2011, comprei de um amigo a bicicleta dele. Passei horas no vadebike.org pra aprender a andar com a minha nova companheira pelas ruas da cidade e minha mãe ganhou uns fios a mais de cabelos brancos quando eu comecei a fazer os 3.7km entre minha casa e a editora onde eu trabalhava sobre duas rodas – muitas subidas que me custavam 25 minutos, fora o tempo de arrumar a bolsa e trocar de roupa quando chegava ao destino, mas como eu era feliz!

Lembro demais do que eu sentia. Quase diariamente, eu trocava de rota, visitava novas ruas e o Facebook vive me mostrando lembranças daqueles dias de lua de mel com a Magrela. Mudei de casa não muito tempo depois e nunca mais consegui fazer esse trajeto casa-trabalho com a minha fiel escudeira.

Passaram-se seis anos e, após muita burocracia com a empresa de ônibus, minha caloizinha chegou comigo ao centro-oeste brasileiro. Tirei-a da caixa e montei as peças na rodoviária mesmo, sob os olhares curiosos dos meus conterrâneos, mal podendo esperar pela mudança na minha rotina. Justo nessa semana, choveu muito. Dizem que este é o sinal de um milagre, então achei bem conveniente essa chuva depois de 72 dias de seca. Deu tempo de fazer a revisão que a Magrela merecia e hoje, voltando do meu trajeto de 5.3km que eu faço em só 15 minutinhos neste terreno plano do cerrado de meu Deus, percebi a falta que esse hábito me fez.

O pedal sempre me inspirou – e ah, quem me vê cantando, leve, em cima da minha pretinha, nem imagina o tanto de poesia que a minha vida já tão maravilhosa ganhou de volta por causa dela. Nesse mês em que eu faço aniversário, só posso mesmo agradecer por tantos presentes especiais. 

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Farewell

Último dia em Hanoi - Vietnam

Quando saí do Brasil, 114 dias atrás, eu queria ver o mundo. Desembarquei em Hanoi, a cidade mais maluca do Vietnam, quase dois dias depois (juntando intermináveis 28h de voo e 10h a mais de fuso), ainda sem conseguir realmente entender que estava do outro lado do planeta. Fiz minha primeira refeição só no dia seguinte, depois de perguntar à menina da agência de ônibus se podia acompanhá-la para o café da manhã, porque estava completamente insegura de fazer algo tão simples como pedir comida naquela cultura tão diferente. Felizmente, aprendi rápido (voltar aqui nessa reta final foi muito prazeroso). Porém, o fascínio que me invadia a cada desdobramento dessa viagem jamais passou. Novo dia, nova cidade, novo hostel, pessoas novas e interessantes – eu me agarrei às experiências para aprender o máximo, sentir o máximo, evoluir o máximo.

Histórias do que vivi pra contar não faltam. Nos sorrisos, mãos, olhares, conversas e silêncios, descobri os mais nobres sentimentos em pessoas com quem viajei por um tempo, ou só dividi um lugar no tuktuk, ou com quem interagi tão rápido que sequer tenha conseguido perguntar o nome. Minha profunda fé no ser humano – na força implacável do amor – volta comigo, potencializada.

Nesses últimos 15 dias, muita gente me ouviu dizer que havia chegado a parte final da minha viagem, e a reação quase sempre foi aquele olhar que diz um melancólico “putz, que pena”… Mas a verdade é que me despeço da Ásia com um até breve sereno de quem respondeu a esse olhar com palavras, todas as vezes: “tá tudo bem. Foi uma jornada memorável… E estou muito feliz de, finalmente, voltar pra casa”.

Pois é. Saí do Brasil pra ver o mundo… Acabei abrindo os olhos para um universo inteiro, dentro de mim.

Valentine

Paz caminhante.

São pouco mais de três meses com uns 17 mil quilômetros, mares, montanhas, desertos e florestas entre nós – mas vira e mexe eu fecho os olhos e logo vem o seu sorriso despojado abrir o meu, me fazendo parecer uma boba amalucada no meio da monção asiática, no ônibus local quente e apertado, no lobby do aeroporto em um dos mil minutos de espera, em todas as mais improváveis situações pra sorrir pelas quais alguém pode passar, lá estou eu, irritantemente feliz. Como não vou acreditar em sorte quando meu caminho encontrou o seu? Foi uma longa estrada até aqui: em nem dois anos, nosso namoro viveu em quatro estados e seis países diferentes, naquela teimosia que só os amores feitos pra durar conseguem ter em persistir na hora mais difícil, crescer nos espaços mais apertados e se libertar de prisões imaginárias pra ser energia infinita no universo. Um dia de cada vez, fomos exatamente o que precisávamos ser, e o orgulho que eu tenho do que nós somos hoje não cabe nesse coração transbordante de saudade. Se respirar é a verdade da vida… Esse amor, pra mim, é ar.

Retrospectiva

O primeiro dia de 2016 começou feliz e leve como a poesia costuma descrever os novos amores, e seguiu até esse quase fim numa crescente apaixonada. Impossível não carimbar “paixão” como uma das palavras-chave de mais um capítulo desta história. A minha. Escrever sempre fez parte dela – nas metáforas e entrelinhas, vivi minhas catarses e descobri muito sobre mim. Dividir histórias me aproximou de pessoas. Em caronas e mesas de bar, vi o melhor do mundo. Aprendi. Emocionei-me. Ganhei perspectivas novas e entendimentos maiores para algumas lições.

Conto, sorrindo, sobre a demissão, lá no início do ano, que me obrigou a encerrar o ciclo Bauru da minha vida. Talvez sem esse aparente revés eu nunca tivesse tido coragem para me desapegar de amigos, de uma casa e de hábitos que compunham minha vida há dez anos. Dez anos haviam se passado desde que eu chegara naquela cidade do oeste paulista com uma vontade imensa de me construir. Era hora de gravar outras marcas na alma. Amigos e experiências já estavam muito bem representados – e cada um sabe disso.

Foi na mesma sexta-feira do chute para fora de Bauru que aquela sementinha do “preciso ir embora” despontou para o sol. Por anos adormeceu, mas enfim encontrou terra fértil para crescer. Depois do melhor carnaval em meio metro quadrado já vivido por alguém, coloquei o pé – e as rodas – na estrada. Adicionei CouchSurfing ao meu vocabulário e talvez eu jamais seja capaz de expressar para cada pessoa que cruzou meu caminho nessa viagem o que elas trouxeram para mim: entre os ganhos, uma confiança profunda no bem, na gentileza, no amor ao próximo, no respeito pela vida. Levo no coração uma fé inabalável no ser humano, ampliada depois das conversa s com essas pessoas que me receberam tão calorosamente em suas casas, mesmo sem me conhecer.

Só eu sei o quanto foi essencial ter esses momentos para me ajudar a segurar a onda quando o meu primeiro osso quebrado me deixou de molho por intermináveis seis semanas. Tempo de mais desapegos. Quando se dá a oportunidade de mudar tanto em tão pouco tempo, precisa-se aceitar que alguns amigos e algumas rotinas não caberão mais na nova vida. Chorei muito, porque nunca é fácil se despedir (mesmo que por fora pareça), mas cada soluço deixava o coração um pouco mais leve (também aprendi, esse ano, a não ignorar a dor). A sorte, como sempre, ajudou – tipo quando me presenteou com uma família linda para cuidar da minha peluda, outro caso que vai me exigir a eternidade para agradecer.

E depois de alguns meses dividida entre o Triângulo Mineiro e o Vale do Paraíba, chegou a hora de viver um pouco a selva de pedra, começando em São Paulo um período intenso de descobrimentos e aprendizados. Em meio ao caos de uma cidade cinza, testei meu otimismo e vi só corações coloridos, repletos de vontade, que orgulhosamente posso chamar de amigos. Cresci também em família, meu amor maior. Quem me ouviu dizer “moro com a minha tia”, frase obrigatória em toda primeira conversa paulistana, provavelmente não entende a profundidade dessa convivência ou do significado de família pra mim. É maravilhoso compartilhar momentos tão importantes no aconchego das minhas Minas Gerais. É lindo perceber que somos capazes de rever os mais tradicionais conceitos e respeitar nossas diferenças. E aqui, um destaque para os três pilares primos do meu mundo: pai, mãe, irmã, fontes inesgotáveis de compreensão e força. Sem eles, o próximo parágrafo jamais seria possível.

Porque, quando tudo parecia estável, aquela árvore de “preciso ir embora” começou a dar frutos. Rápido assim, mesmo, porque havia uma pessoa cuidando de um pé da mesma espécie no jardim vizinho, compartilhando adubo, técnicas de cultivo, ajudando a regar. Escrevi sobre isso durante o ano todo, usando as mais variadas formas, tentando ser sutil, pra no fim, todo mundo que lesse fosse capaz de notar imediatamente: Maurício, meu presente da máquina de improbabilidade infinita. Nenhum minuto desperdiçado. Tanta inspiração e sentimentos novos, numa história que se desenrolava mais bonita dia após dia diante dos meus olhos. Obriguei-me a colocar para trás velhas necessidades de rótulos e a curtir os singelos gestos que me enchiam meu coração da esperança de terminar logo com aqueles quilômetros que várias circunstâncias nos impuseram, até a primeira grande decisão que tivemos juntos, colocando nossas vidas em uma estrada comum – e linda! Em meio a planos, possibilidades e sonhos, nós dois. O amor é um caminho para o mar.

E eu, que quando adolescente me perguntava como alguém conseguia ficar mais do que aqueles 10 dias de férias na praia, hoje penso como vivi tanto tempo sem a areia nos pés quase sempre descalços, sem a pele molhada do verão, sem o desafio diário das ondas, sem os ensinamentos da maré mudando a todo momento. Foi no mar, entre uma série e outra, que eu percebi o tanto de lembrança bonita para guardar que esse ano me trouxe – o tamanho da minha felicidade, imensurável, magnífica como o oceano. Houve uma lição-título neste ano: ser feliz é simples, e muito fácil quando se tem tanto amor. E antes de terminar o ano, deixo meu muito obrigada a cada um que fez da minha felicidade ainda mais fácil.

Pode vir, 2017!

Dinomania

Fazia calor e uma brisa amigável quando ela chegou na beira-mar. Tirou as sandálias rasteiras que usava e caminhou com leveza até onde vinha a maré. Parou quando sentiu a areia úmida se mover com o peso de seu corpo, lembrando da sensação que vinha da infância, daqueles doces anos em que seus pezinhos gordos saltitavam felizes, correndo das ondas, enquanto aprendia tudo sobre o mundo. Quando a espuma do mar tocou seus pés agora crescidos, deixou-se envolver na água salgada, numa conexão profunda com a criação. Acolhida pelo mar, apoiada sobre a terra, energizada pelo ar, aquecida pelo sol, percebeu-se microcosmo de universo, substancialmente parte de algo que jamais se dividia.

Chutou a água e dançou uma coreografia de improviso, seguindo o tom de sua felicidade, libertando aquela criança que tanto gostava de assumir o posto de comandante do corpo. A praia vazia era um convite à bailarina que habitava seu ser e quase sempre rodopiava em ocasiões inoportunas, e ela gargalhou alto quando se deu conta de que aqueles dias de contingência estavam quase terminando. Girou, passou as mãos na água e espalhou mais gotas pelo ar, divertida com os arco-íris instantâneos que formavam quando atravessadas pelo sol. Sorria tanto que demorou para perceber que as suas lágrimas ajudavam a salgar a praia. Pura gratidão.

Segurou o passo e entrou um pouco mais no mar – uma entrega maior. Ajoelhou na areia e sentou sobre os pés, permitindo-se sorver aquela energia de encontro, de fusão, de liberdade. Respirava cada vez mais devagar e profundamente, acalmando o coração, serenando, emanando luz. Sem precisar procurar mais nada, fechou os olhos e olhou para dentro. Buscar palavras era em vão. Não encontraria em seu repertório nenhuma descrição para o que sentia.

Sentada na beira do mar, abriu os olhos para o sol poente, despertando as primeiras luzes do céu, e seu coração bateu tão forte que imediatamente levantou e voltou a dançar e a rir alto, enchendo o entardecer de som e mágica. Pulsava vida e repetia um mantra em seu pensamento: “obrigada”. Entendia a lógica do encadeamento de ações, mas não tinha espaço para racionalização ali. Tudo o que poderia fazer era agradecer pelo lindo caminho que se abria.

Dançou até escurecer totalmente, e já não estava mais sozinha. Na praia dos seus sonhos, via cada rosto querido que a acompanhava neste fragmento de História. Não se importava com registros, desde que tocasse mais e mais corações, assim como permitia que o seu fosse tocado. Era tudo tão bonito e real que virou lembrança. Marco inicial de um presente realmente repleto de verdade. Ela era livre.

Do nãodizer

Fazia um ano desde uma noite em que ela teve uma especial conversa com as estrelas. Foi um daqueles momentos marcantes, divisores de água, em que é possível ver a vida mudar de curso ao olhar-se para trás. Fechou os olhos e foi sugada para o passado – túnel do tempo de lembranças. Não conseguia distinguir presente de memória. Era tudo tão claro, tão intenso, que a vida daquele ano era como um portal no espaço-tempo, que juntava tantos dias em um ponto minúsculo e repleto de significado.
Naquela noite que tinha virado uma só, as estrelas brilhavam como nunca. Prelúdio da mudança. Dali em diante, nada mais seria igual. Ela se impressionava com a influência que uma pessoa, até então desconhecida, tinha em sua vida. Que, mesmo estando longe, dava o impulso para ela dar o primeiro passo no escuro. O primeiro passo para o futuro.

Quilômetros distante, ele não se preocupava em se perguntar o mesmo. Solto em sua liberdade, não fazia a menor ideia de como se moveria através da vida com ela. Como poderiam saber? Eram pontos de luz em si, tsunamis de verdades, arrasando castelos de carta por onde passavam, desconstruindo tabus, emanando BeM. Não havia maneira de prever o que poderia acontecer quando duas forças como eles se (re)unissem. Iniciariam um episódio único na História. Jamais seriam lembrados, pois esquecê-los eram impossível.

Cada um sabia, à sua maneira, que aquele encontro teria consequências especiais. Em gestos e festas, saudades e fotos, evitaram pronunciar o que já estava claro. Deixaram o tempo cuidar, o jogo virar, o inevitável acontecer. Com uma paciência que não era comum, emudeceram. As palavras ali não eram necessárias.

E se tudo tinha um motivo, um porquê, houve um momento, naquele turbilhão do espaço-tempo, em que absolutamente tudo fez sentido. Ainda não precisavam verbalizar, mas foi mais forte do que eles. Transbordaram parágrafos inteiros na tentativa de se fazer entender. Irrelevante. O que um dizia, o outro completava. E de repente, tudo o que havia ficado travado nas cordas vocais soou musicalmente, quarto, sala, mundo afora. O nãodizer pode ter seus encantos. 

Principalmente agora, quando tudo estava, enfim, dito.

Imensidão

Sentia crescer em si a noção do tempo. Viveu dia após dia como nunca havia feito, mas agora acumulava aniversários, e a imensidão do anuário invadia-lhe os sonhos e o presente. As lembranças que chegavam a cada amanhecer remetiam para um passado que tinha pinta de longínquo, mas era ainda novo. Um daqueles marcos da vida, aquela encruzilhada que definiu o próximo pulsar do universo e mudou o curso da história, comemorando o primeiro ano de existência. Impossível. Checou com o departamento de memórias. Conferiu o calendário. Era isso mesmo. Nem um minuto a mais na linha implacável da segunda dimensão. Se tinha sensações de milênios passados, era pela ilusão da mente, truque bom pra expandir aquilo que faz bem, tão bem, só de lembrar, arrepia.

Encontrou em si o primeiro olhar. O primeiro toque. A primeira música compartilhada. Inocência flagrada em campos de eucaliptos. Sem querer. Mergulhavam em si inconscientes da profundidade pra onde batiam os pés sujos de terra, poeira, sol, chuva e frio. Peixes na correnteza, incapazes de seguir contra a direção natural de seu curso, certos da sabedoria do oceano, berço de todas as coisas. Foram o começo também. Viram o dia nascer e, com ele, todas as possibilidades. Germinaram feito a semente, material nobre da vida, vivenciando cada falta de água, intempérie, inundação e seca bravamente, até florescer no melhor dia de sol. Não percebera a vastidão do que tinha sido construído até a menção do 365. Descobriu, então, um histórico de orgulho.

Demorou pra ser. Como as coisas boas da vida, veio devagar, suave como o respirar da menina tranquila numa noite de verão, enchendo o corpo com ar puro, revigorando cada célula, servindo de gatilho para despertar. Quando abriu os olhos, era só luz. Revisitou aquela lembrança perfeita da primeira manhã. Aquela em que descobriu que nunca era cedo para viver. A metáfora do acordar caía bem como cerveja na beira-mar. Que era, muito propiciamente, lugar de construções de bases sólidas para os castelos que se permitiam sonhar. Seu pensar ganhou um novo vício. Sua vida se encheu de cor. Último clichê que se permitiu escrever sobre aquelas lindas impressões de alma. Não tinha script que desse conta de uma vicissitude daquela. De previsível, só a permanência. Deviam ao mundo uma experiência extraordinária, que correspondesse à magia daquela sinergia.

Do lugar mais alto, via que estavam cumprindo a sina. Plenamente, seguiam as melhores estradas, já sem a ajuda dos mapas que acompanharam lá no início. Não podiam se perder. Vislumbrou a beleza de seu caminho que tantas vezes pareceu errático, mas que, dali, fazia tanto sentido. Sem nenhuma tristeza, sentiu que chorava, completamente tomada pela emoção de perceber o privilégio de ter na vida essa narrativa linda e aniversariante para contar. O coração deu um pulo. A vida precisa de paixão. E ela tinha.