Memória sensorial

Tem um cheiro nesse mundo que eu não sei de onde vem. É um cheiro de mato, meio picante, que sobe do chão e desce das árvores, em alguns dias ao entardecer, sem aviso nem padrão. Na minha cidade natal, tem uma rua que vai para a casa onde minha vó morava, a casa dos tios quase todos, a casa da tia Veva. Essa rua é cheia de árvores, onde eu sinto esse cheiro desde criança – ou indo ou voltando desses lugares-recanto de boas memórias da infância. É um cheiro de paz. Já tentei saber que folha emana esse aroma, ou qual é a situação do clima pra ele surgir perfumando o ar. E já desisti. Porque toda vez que esse cheiro invade a minha memória olfativa, eu só sinto – e não consigo procurar padrões lógicos quando sinto essa invasão de felicidade, tão pura e genuína quanto a minha mais feliz gargalhada que me acompanha da meninice até hoje. Quando senti esse cheiro nesta tarde, achei que ser feliz era meio simples demais pra eu complicar. Tá cheio de notícia ruim no mundo, cheio de gente violenta e intolerante, cheio de injustiça; mas também tá cheio de cheiros que nos levam direto pra uma noção maravilhosa de que há jeito pra maldade. Às vezes, é só deixar o vento bater no rosto e respirar bem fundo, que as coisas voltam a fazer sentido de novo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s