Dias de Luta

8 de março é um dia de luta. Um dia que só precisa existir por causa de uma cultura que tanto falhou em nos respeitar, mulheres, como seres humanos. Esse dia não existe para lembrar e afirmar a incrível capacidade feminina de ser linda, meiga, resiliente, (coloque seu adjetivo aqui). Ele existe para trazer à pauta essa luta política, cultural e social, aumentar a voz das mulheres e ganhar espaço para espalhar essa noção tão óbvia, mas tão ignorada, de que nós merecemos viver sem o medo de sermos violentadas e assassinadas só por sermos mulheres; sem a repressão sexual; sem tanta discriminação em todos os âmbitos da rotina; sem a sombra do patriarcado e do machismo que tanto atrapalham o protagonismo das mulheres sobre nossas próprias vidas. Sem jamais perder o amor pelas flores, pelos elogios e pelas homenagens, sigamos em LUTA – por igualdade nos direitos políticos, civis e sociais. Juntas, somos muito mais fortes. A todas as mulheres que lerem este texto: contem sempre comigo.

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Coentro

Todas as andanças da minha viagem pela Ásia eram uma explosão de estímulos sensoriais. Palavras que eu nunca havia visto e até outro alfabeto, vozes falando em línguas que eu jamais vou aprender, texturas nunca antes experimentadas, o sabor do chips de jaca e outras comidas maravilhosas que nem tento reproduzir pra não estragar o encanto. E o cheiro… Dava pra seguir pelo cheiro praticamente todas as feiras de rua das cidades. Havia um tom especial no ar, um aroma refrescante e que eu às vezes também sentia no gosto do meu jantar. “Cheiro de Ásia”, foi a etiqueta que meu cérebro deu pra ele. Nunca me preocupei em descobrir de onde ele vinha e assim voltei pra casa – com esse detalhe desconhecido na parede da memória.

Acelera o tempo, o lugar agora é Três Lagoas, onde a feira de rua é segunda, quarta e sábado. Como boa comedora de verduras e ovos que sou, periodicamente estou lá, pechinchando o meu “três verduras por 10 reais”. Dois de sempre são alface e rúcula, que acabam porque eu almoço todos os dias com um matagal deles no prato. Mas um dia, o freezer já tinha sua cota de cebolinha, salsinha e couve congeladas. “O que mais entra na promoção?”, pergunto. “Coentro”, a tiazinha da banca fala. E eu, que nunca havia comprado coentro fresco para temperar a minha comida, aceito o maço que ela me oferece para cheirar. Meus olhos chegam a marejar com a lembrança ativada espetacularmente: “cheiro de Ásia”. Um golpe de sorte. Um presente do universo. Um passe instantâneo de volta para muitos dos melhores momentos do meu mochilão, que girava em torno de comer e de ver o sol nascer ou por-se, basicamente.
Hoje, cozinhei meu franguinho de todos os dias com coentro fresco que trouxe da feira sábado, e o cheirinho ficou por algumas horas impregnado na minha mão, e depois deixou meu almoço um pouco mais feliz. Se alguém acha que ainda não inventaram jeito de voltar no tempo, eu vou refutar a ideia e dizer: talvez você pense isso porque ainda não descobriu o poder do coentro. 🍀

Memória sensorial

Tem um cheiro nesse mundo que eu não sei de onde vem. É um cheiro de mato, meio picante, que sobe do chão e desce das árvores, em alguns dias ao entardecer, sem aviso nem padrão. Na minha cidade natal, tem uma rua que vai para a casa onde minha vó morava, a casa dos tios quase todos, a casa da tia Veva. Essa rua é cheia de árvores, onde eu sinto esse cheiro desde criança – ou indo ou voltando desses lugares-recanto de boas memórias da infância. É um cheiro de paz. Já tentei saber que folha emana esse aroma, ou qual é a situação do clima pra ele surgir perfumando o ar. E já desisti. Porque toda vez que esse cheiro invade a minha memória olfativa, eu só sinto – e não consigo procurar padrões lógicos quando sinto essa invasão de felicidade, tão pura e genuína quanto a minha mais feliz gargalhada que me acompanha da meninice até hoje. Quando senti esse cheiro nesta tarde, achei que ser feliz era meio simples demais pra eu complicar. Tá cheio de notícia ruim no mundo, cheio de gente violenta e intolerante, cheio de injustiça; mas também tá cheio de cheiros que nos levam direto pra uma noção maravilhosa de que há jeito pra maldade. Às vezes, é só deixar o vento bater no rosto e respirar bem fundo, que as coisas voltam a fazer sentido de novo.

O nascimento dos pais

Um dia de diferença para cada aniversário. Desde que eu me entendo por gente, achava essa uma coincidência óbvia demais para o destino ignorar: vocês haviam nascido um para o outro, feitos para estar juntos e construírem a nossa família. Na minha mente infantil imaginativa e romântica, a história de Shakespeare tinha errado o nome do protagonista. Romeu, que nada – Julieta e Carlos! Era esse o casal mais importante dos meus contos de fadas. Eram tantos os seus superpoderes na minha aventura cotidiana de crescer que dava até pra lançar um filme de herói. Perguntas? Vocês tinham todas as respostas. Machucados? Era só assoprar que a dor passava. Pras noites de insônia? Histórias com bruxas e estrelas cadentes! Segunda-feira de chuva e febre? Sopinha levanta-doente. Pesadelo e outros medos? Era só me enfiar na cama de vocês pra ganhar proteção imediata contra todos os males do mundo.
Os anos foram passando, eu fui crescendo e vocês, sob meus olhos, foram virando humanos. Que transição maravilhosa de ver. Entendi que o destino pode até ter dado uma mãozinha, mas que construir uma família requer muito mais do que fazer aniversário quase no mesmo dia – amor. Que os seus superpoderes não faziam de vocês perfeitos, mas que estavam dando o melhor que podiam para ensinar Luíza e eu a sermos seres humanos dignos – amor. Que o mundo e os males dele chegariam até nós, de um jeito ou de outro, por maior que fosse a proteção, mas que vocês nos deixariam viver mesmo assim – amor. Cada dia dessa vida, quando é com vocês, tem esse resumo: amor.
E nessa tradição bonita que a gente criou de sempre dizer o que é importante, escrevo para os dois neste dia do meio dos aniversários que eu não poderia ter recebido lição melhor, exemplo mais valioso que o de ser capaz de amar, nos sentidos mais amplos e menos comuns da palavra. É uma grande honra ter minha história tão misturada com a de vocês, e perceber o legado de felicidade que vocês deixam o tempo todo em meu coração. Celebro a vida de vocês hoje e para sempre. Pai e mãe, feliz aniversário!

“Não temos escolha”

Essa noite, acordei assutada com o vento e a chuva, e minha lembrança me levou de volta para um dia muito especial da minha viagem pela Ásia, quando eu estava no Myanmar, já contando os dias para voltar ao Brasil, e passei 3 dias caminhando pelas montanhas e planícies do norte desse querido país, no conhecido trekking de Kalaw a Inle Lake. Já era época de monção e fiz figa para que a previsão do tempo no meu celular estivesse errada, mas as nuvens em todas as minhas fotos provam: a chuva acompanhou o meu grupo desde o começo.

Torcendo para a garoa do primeiro dia não piorar, vesti meu poncho e parti. Mas a chuva aumentou, e de noite, perdi o sono diversas vezes com a força dos ventos e da água batendo nas paredes rusticamente construídas com madeira – o coração apertando com a possibilidade de caminhar por trilhas escorregadias e desconhecidas debaixo de um temporal. Perguntei a uma das guias se seguiríamos viagem apesar do tempo. “Não temos escolha”, ela respondeu, enquanto fritava uma leva de rabanadas para nosso café da manhã.

Vestimos todos os nossos tênis ensopados e ponchos, e marchamos morro acima, encarando a chuva que abrandava e apertava sem aviso, já pouco ligando para a lama que levávamos na sola do pé. “Não temos escolha”. Chegamos sãos, salvos e molhados à segunda casa que nos abrigou no caminho, felizes pela superação e por termos conseguido manter a energia vibrando alta, mesmo com as dificuldades – climáticas ou não.

Na madrugada de hoje, quando revivi a sensação de alguns meses atrás, percebi a serenidade com que aquela filha do Myanmar me disse aquela sábia afirmação, e abstrai uma lição importante: quando temos um objetivo que vale a pena, diante das adversidades, não temos outra escolha senão seguir em frente, enfrentando nossos medos e fazendo o possível para manter o sorriso no rosto. O sol veio, finalmente, no terceiro dia de caminhada por lá. O sol sempre virá por aqui também.

De volta ao pedal

Pedalar nos conecta com o mundo, faz com que sejamos parte da cidade, abre a alma para a vida.

Dia 11 de agosto de 2011, comprei de um amigo a bicicleta dele. Passei horas no vadebike.org pra aprender a andar com a minha nova companheira pelas ruas da cidade e minha mãe ganhou uns fios a mais de cabelos brancos quando eu comecei a fazer os 3.7km entre minha casa e a editora onde eu trabalhava sobre duas rodas – muitas subidas que me custavam 25 minutos, fora o tempo de arrumar a bolsa e trocar de roupa quando chegava ao destino, mas como eu era feliz!

Lembro demais do que eu sentia. Quase diariamente, eu trocava de rota, visitava novas ruas e o Facebook vive me mostrando lembranças daqueles dias de lua de mel com a Magrela. Mudei de casa não muito tempo depois e nunca mais consegui fazer esse trajeto casa-trabalho com a minha fiel escudeira.

Passaram-se seis anos e, após muita burocracia com a empresa de ônibus, minha caloizinha chegou comigo ao centro-oeste brasileiro. Tirei-a da caixa e montei as peças na rodoviária mesmo, sob os olhares curiosos dos meus conterrâneos, mal podendo esperar pela mudança na minha rotina. Justo nessa semana, choveu muito. Dizem que este é o sinal de um milagre, então achei bem conveniente essa chuva depois de 72 dias de seca. Deu tempo de fazer a revisão que a Magrela merecia e hoje, voltando do meu trajeto de 5.3km que eu faço em só 15 minutinhos neste terreno plano do cerrado de meu Deus, percebi a falta que esse hábito me fez.

O pedal sempre me inspirou – e ah, quem me vê cantando, leve, em cima da minha pretinha, nem imagina o tanto de poesia que a minha vida já tão maravilhosa ganhou de volta por causa dela. Nesse mês em que eu faço aniversário, só posso mesmo agradecer por tantos presentes especiais. 

Farewell

Último dia em Hanoi - Vietnam

Quando saí do Brasil, 114 dias atrás, eu queria ver o mundo. Desembarquei em Hanoi, a cidade mais maluca do Vietnam, quase dois dias depois (juntando intermináveis 28h de voo e 10h a mais de fuso), ainda sem conseguir realmente entender que estava do outro lado do planeta. Fiz minha primeira refeição só no dia seguinte, depois de perguntar à menina da agência de ônibus se podia acompanhá-la para o café da manhã, porque estava completamente insegura de fazer algo tão simples como pedir comida naquela cultura tão diferente. Felizmente, aprendi rápido (voltar aqui nessa reta final foi muito prazeroso). Porém, o fascínio que me invadia a cada desdobramento dessa viagem jamais passou. Novo dia, nova cidade, novo hostel, pessoas novas e interessantes – eu me agarrei às experiências para aprender o máximo, sentir o máximo, evoluir o máximo.

Histórias do que vivi pra contar não faltam. Nos sorrisos, mãos, olhares, conversas e silêncios, descobri os mais nobres sentimentos em pessoas com quem viajei por um tempo, ou só dividi um lugar no tuktuk, ou com quem interagi tão rápido que sequer tenha conseguido perguntar o nome. Minha profunda fé no ser humano – na força implacável do amor – volta comigo, potencializada.

Nesses últimos 15 dias, muita gente me ouviu dizer que havia chegado a parte final da minha viagem, e a reação quase sempre foi aquele olhar que diz um melancólico “putz, que pena”… Mas a verdade é que me despeço da Ásia com um até breve sereno de quem respondeu a esse olhar com palavras, todas as vezes: “tá tudo bem. Foi uma jornada memorável… E estou muito feliz de, finalmente, voltar pra casa”.

Pois é. Saí do Brasil pra ver o mundo… Acabei abrindo os olhos para um universo inteiro, dentro de mim.