Dinomania

Fazia calor e uma brisa amigável quando ela chegou na beira-mar. Tirou as sandálias rasteiras que usava e caminhou com leveza até onde vinha a maré. Parou quando sentiu a areia úmida se mover com o peso de seu corpo, lembrando da sensação que vinha da infância, daqueles doces anos em que seus pezinhos gordos saltitavam felizes, correndo das ondas, enquanto aprendia tudo sobre o mundo. Quando a espuma do mar tocou seus pés agora crescidos, deixou-se envolver na água salgada, numa conexão profunda com a criação. Acolhida pelo mar, apoiada sobre a terra, energizada pelo ar, aquecida pelo sol, percebeu-se microcosmo de universo, substancialmente parte de algo que jamais se dividia.

Chutou a água e dançou uma coreografia de improviso, seguindo o tom de sua felicidade, libertando aquela criança que tanto gostava de assumir o posto de comandante do corpo. A praia vazia era um convite à bailarina que habitava seu ser e quase sempre rodopiava em ocasiões inoportunas, e ela gargalhou alto quando se deu conta de que aqueles dias de contingência estavam quase terminando. Girou, passou as mãos na água e espalhou mais gotas pelo ar, divertida com os arco-íris instantâneos que formavam quando atravessadas pelo sol. Sorria tanto que demorou para perceber que as suas lágrimas ajudavam a salgar a praia. Pura gratidão.

Segurou o passo e entrou um pouco mais no mar – uma entrega maior. Ajoelhou na areia e sentou sobre os pés, permitindo-se sorver aquela energia de encontro, de fusão, de liberdade. Respirava cada vez mais devagar e profundamente, acalmando o coração, serenando, emanando luz. Sem precisar procurar mais nada, fechou os olhos e olhou para dentro. Buscar palavras era em vão. Não encontraria em seu repertório nenhuma descrição para o que sentia.

Sentada na beira do mar, abriu os olhos para o sol poente, despertando as primeiras luzes do céu, e seu coração bateu tão forte que imediatamente levantou e voltou a dançar e a rir alto, enchendo o entardecer de som e mágica. Pulsava vida e repetia um mantra em seu pensamento: “obrigada”. Entendia a lógica do encadeamento de ações, mas não tinha espaço para racionalização ali. Tudo o que poderia fazer era agradecer pelo lindo caminho que se abria.

Dançou até escurecer totalmente, e já não estava mais sozinha. Na praia dos seus sonhos, via cada rosto querido que a acompanhava neste fragmento de História. Não se importava com registros, desde que tocasse mais e mais corações, assim como permitia que o seu fosse tocado. Era tudo tão bonito e real que virou lembrança. Marco inicial de um presente realmente repleto de verdade. Ela era livre.

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Imensidão

Sentia crescer em si a noção do tempo. Viveu dia após dia como nunca havia feito, mas agora acumulava aniversários, e a imensidão do anuário invadia-lhe os sonhos e o presente. As lembranças que chegavam a cada amanhecer remetiam para um passado que tinha pinta de longínquo, mas era ainda novo. Um daqueles marcos da vida, aquela encruzilhada que definiu o próximo pulsar do universo e mudou o curso da história, comemorando o primeiro ano de existência. Impossível. Checou com o departamento de memórias. Conferiu o calendário. Era isso mesmo. Nem um minuto a mais na linha implacável da segunda dimensão. Se tinha sensações de milênios passados, era pela ilusão da mente, truque bom pra expandir aquilo que faz bem, tão bem, só de lembrar, arrepia.

Encontrou em si o primeiro olhar. O primeiro toque. A primeira música compartilhada. Inocência flagrada em campos de eucaliptos. Sem querer. Mergulhavam em si inconscientes da profundidade pra onde batiam os pés sujos de terra, poeira, sol, chuva e frio. Peixes na correnteza, incapazes de seguir contra a direção natural de seu curso, certos da sabedoria do oceano, berço de todas as coisas. Foram o começo também. Viram o dia nascer e, com ele, todas as possibilidades. Germinaram feito a semente, material nobre da vida, vivenciando cada falta de água, intempérie, inundação e seca bravamente, até florescer no melhor dia de sol. Não percebera a vastidão do que tinha sido construído até a menção do 365. Descobriu, então, um histórico de orgulho.

Demorou pra ser. Como as coisas boas da vida, veio devagar, suave como o respirar da menina tranquila numa noite de verão, enchendo o corpo com ar puro, revigorando cada célula, servindo de gatilho para despertar. Quando abriu os olhos, era só luz. Revisitou aquela lembrança perfeita da primeira manhã. Aquela em que descobriu que nunca era cedo para viver. A metáfora do acordar caía bem como cerveja na beira-mar. Que era, muito propiciamente, lugar de construções de bases sólidas para os castelos que se permitiam sonhar. Seu pensar ganhou um novo vício. Sua vida se encheu de cor. Último clichê que se permitiu escrever sobre aquelas lindas impressões de alma. Não tinha script que desse conta de uma vicissitude daquela. De previsível, só a permanência. Deviam ao mundo uma experiência extraordinária, que correspondesse à magia daquela sinergia.

Do lugar mais alto, via que estavam cumprindo a sina. Plenamente, seguiam as melhores estradas, já sem a ajuda dos mapas que acompanharam lá no início. Não podiam se perder. Vislumbrou a beleza de seu caminho que tantas vezes pareceu errático, mas que, dali, fazia tanto sentido. Sem nenhuma tristeza, sentiu que chorava, completamente tomada pela emoção de perceber o privilégio de ter na vida essa narrativa linda e aniversariante para contar. O coração deu um pulo. A vida precisa de paixão. E ela tinha.

Inescapável

Todos os grandes eventos da vida acontecem num repente. Foi assim com eles. Era um dia comum, e quando ele entrou na sala, cheio de tralhas na mão, perguntando por ela, com o sorriso iluminado, o caminho deles mudou pra sempre.

De um jeito quase premonitório, o coração dela perdeu um compasso, atraído pela gravidade daquela presença, e depois bateu forte, espalhando rápido as sensações deliciosas que ele provocava.

Ele notou as bochechas vermelhas, mas disfarçou o ar de vitória. Seguiu sorrindo, naquele roteiro de encantamento que já aprendera de cor, gostando do som que o nome dele ganhava quando era ela chamando.

Jamais imaginaram a sequência de eventos que viria daquele momento.

Saborearam cada pedaço de história construída. Aquilo era uma brecha de sonho no espaço-tempo, tão rara que era impossível ignorar. Intensos como eram, deixaram-se ser inteiros de uma vez. Pularam juntos, confiando que, em algum momento, criariam asas.

Atravessaram nuvens de tempestade, vendavais, noites frias, mas não se largaram as mãos. Fé inabalável. E de novo, num repente, voaram. Viram as nuvens de cima, gordinhas, amarelas e brilhando a luz do sol. Alcançaram as estrelas, o lugar mais alto.

Daquele dia em diante, sorriram sem moderação, tomados pela consciência leve, mas avassaladora, do poder de cada escolha feita até ali. Sentiam isso em cada poro, cada respirar.  Quando voltaram para o chão, estavam diferentes – estampada no olhar, a vivacidade de quem escreveu o próprio destino.

Parada

Ele entrou no ônibus cansado, sem esperanças de encontrar um lugar para sentar. Aquele era o menor dos seus problemas. Pensava na mãe, no pai, na saudade imensa que precisava aprender a ignorar enquanto aprendia também a viver em meio a tanta informação, cores, números de linhas, pessoas que imaginava serem suas conhecidas, para logo depois passarem em passos rápidos, sem nem desviarem o olhar. Na desesperada busca pelo familiar, inventava encontros sem sentido, para sentir-se menos só.

Os “bom dia” não respondidos eram facadas em seu coração. De repente, viu-se invisível. Mas já não tinha a ideia de cidade cinza. Resolveu não levar para o pessoal. Se as pessoas estavam muito ocupadas até para serem gentis, tinha realmente muito trabalho pela frente.

Em sua aparente resiliência, ele sorria para tudo e para todos. Cara de mau nunca combinara com ele. E mesmo dentro daquele ônibus lotado, alerta para qualquer movimento que pudesse significar um roubo de celular, era capaz de sentir a própria grandeza. Escolhia a leveza porque sim. Podia se contaminar com a ranzinzice alheia? Sim. Escolhia diferente. Preferia acreditar que cada dia era um sonho realizado naquele novo capítulo de sua vida.

A avenida também estava cheia. Meio metro de locomoção gastava o que pareciam horas. O ponto chegou. As portas abriram. Fecharam. E ele não saiu do lugar. Curioso, deu-se o direito de observar. E encontrou o que não esperava. Um olhar. Não qualquer um. Aquele, cheio de significado. Ela tinha o cabelo curto, olhos muito pretos, e com aquela luz difícil de ignorar. Talvez ele também tivesse, pois ela sustentou o contato. Ele sentia como se falasse. E entendeu nela palavras de absoluto, que jamais foram ditas de fato. Não era invisível. Por alguns segundos, esquadrinharam-se e reconheceram-se – ele dentro, ela fora da caixa de ir.

O semáforo deve ter abrido, a manifestação acabado, a multidão dispersado. Só isso explicava o porquê de aquele movimento tão inesperado. Seguiram-se enquanto puderam. Era inevitável o fim.

Naquele dia, ele soube que o invisível criava algumas das histórias mais lindas do mundo, mesmo que elas durassem segundos. Uma vez mais, decidiu acreditar no bem. Quem está disposto a encontrá-lo, nunca se decepciona.

Segundas impressões

No princípio, era cinza. Não conseguia encontrar na lembrança o que a fazia chegar e só notar a poluição, o mau cheiro, as paredes de cimento, hostis e frias.

Passou anos em rejeição. Não sabia o porquê, mas os motivos estavam arraigados em si. Era sempre não. Bambeava entre a insegurança e a dúvida. E tinha medo.

O tempo seguiu e, como deve ser mesmo, ela ganhou novos caminhos. Inesperados, é verdade, mas quem é que pode esperar qualquer coisa? No fim das contas, a vida é uma eterna ilusão de expectativas feitas para se quebrar. E não há mal nisto – aceitar essa máxima é o início da serenidade.

E foi sob este pano de fundo que fez a reestreia de sua vida no lugar menos esperado. Na trilha sonora de fone de ouvido, desenrolava cena após cena, completamente arrebatada pela novidade.

No palco, ela dançava, gargalhava, chorava e falava. Todos eram audiência. Ao mesmo tempo, se viu expectadora do espetáculo alheio. Entreouvia histórias partidas e completava, porque sim, o começo e o fim. Flagrava encontros, beijos e abraços na multidão, e captava no ar o contexto de amor. Encontrava pessoas que sorriam de volta para ela, e acreditava que o mundo era mais de bem do que sede mal.

Também tropeçou no sofrimento, na injustiça, no desamparo, na morte. Aprendeu a não se cegar e a olhar para fora com empatia e atitude. Entendeu que tudo aquilo também era parte da vida. Sublimou o que era treva e deixou-se ser luz.

Não precisava de aplausos. A alegria que acordava a cada novo dia era troféu de um duelo sem perdedores. Na sinopse de sua peça, escreveu: um roteiro dedicado a todos que acreditam em segundas chances.

Hipótese

Poderia ter sido um livro, uma novela, um grande sucesso do cinema. Foi a nossa vida. Íntima, plena, curiosa. Acima de tudo: interessante. Estourei uma pipoca pra ver. O roteiro é tão bom que os produtores disseram não haver prazo para a estreia da próxima atração. Não há uma próxima atração nos planos.

Poderia ter sido quieta, não fosse por umas poucas linhas que eu mesma escrevi, quase ninguém leu, mas que nas palavras que o silêncio não foi capaz de impedir, contavam o sorriso, influência, a verdade. E esta, mesmo sem uma sílaba de som sequer, fala aos quatro ventos.

Poderia ter sido um farol. Iluminaria os pescadores perdidos e serviria de cenário para muitas fotos. Foi barco. Preferia a beleza rara da incerteza do mar, do marulhar das ondas, da correnteza mudando. Não tinha nascido para um lugar só. Merecia ganhar o mundo.

Poderia ter sido um sonho. Certamente parecia isso quando começou. Foi experiência. De minuto em minuto, novidades, gratidão, respeito. Talvez isso tudo fosse mesmo parte de uma utopia, com a única diferença que não era perfeito – pelo contrário. Tinha tanta oportunidade de melhoria que mais parecia um artigo de empreendedorismo. E assim, pra nós, seres inquietos e desejosos de evolução, talvez seja a única forma de definir o que é perfeito.

Poderia ter sido uma tragédia. Imagina só, a gente sem eu e você? Gosto nem de pensar. Mas foi só amor. Uma mistura de parque de diversões, quarto de criança, beira de praia e mais um monte de de coisa boa que, se pensarmos na vida sem elas, só vamos lembrar do tanto que até mesmo o paraíso sem nós fica sem graça e monótono.

Poderia não ter sido? Impossível pensar que sim. Só havia uma opção. Ser.

E é.